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FERNANDO ALAGOA

Blogue Oficial

FERNANDO ALAGOA

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09
Dez16

Imortalidade

Hoje, percorrido um caminho que vai um pouco além dos 50 anos de idade, medito amiúde sobre a inexistência. Inexistir é o nada.

Serei muito sincero ao afirmar que a caçadora intemporal e sempre bem-sucedida, ainda não me tira o sono, mas à cautela, mantenho-me agora mais atento, na pura ilusão de a poder ludibriar.

Na verdade, a ideia da imortalidade que os vinte anos alimentavam, há muito que se desvaneceu.

É porventura a certeza do porvir da inexistência, que me atormenta.

Existimos e depois inexistimos e, o nada, toma o nosso lugar.

A existência humana é um suspiro de poeira na imensidão cósmica.

Medito nestas coisas e questiono-me sobre o destino dos meus abraços e dos meus sorrisos.

A borracha esmagadora do tempo eliminá-los-á pura e simplesmente para todo o sempre?

Qual será o significado da minha passagem?

Então, o Tempo, o grande mestre e guardião da sabedoria, encarregou-se de me ensinar algumas coisas, embora receie que a lição peque por tardia.

A única imortalidade que nos está reservada é alcançada pelos gestos.

E embora os gestos sejam importantes, não são eles em si mesmos que contam, mas o efeito que provocam nos outros:

Naqueles a quem embalei em criança;

Naqueles a quem emprestei um abraço;

Naqueles com quem partilhei lágrimas.

São esses que me tornarão imortal, quando um dia, num lampejo de memória, se recordarem daquele abraço, daquele colo ou daquele sorriso!?

E depois questiono-me se também eu já tive a capacidade de imortalizar alguém?

Como já perceberam, só tenho perguntas e quase nenhumas respostas, mas acalenta-me a ideia de que os gestos possam provocar essa pequeníssima diferença no universo e, que, um pequeno afecto, possa provocar uma onda na imensidão do cosmos.

Talvez esse seja o nosso efeito borboleta e o único motivo da nossa existência!...

Existimos para provocar mudanças e não para sermos lembrados por elas.

A simples lembrança imortaliza-nos, mas isso é o menos importante.

© Fernando Alagoa
Editoras
Leya Escrytos
Alphabetum