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FERNANDO ALAGOA

Blogue Oficial

FERNANDO ALAGOA

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21
Dez16

A descoberta do Natal

No dia de Natal, a minha mãe levantava-se ainda mais cedo do que era habitual. Por volta das seis da manhã, já os utensílios de culinária se atropelavam tentando ganhar destaque num qualquer canto especial. Não precisava de lá estar para saber que, depois daquele momento de conquista dos espaços, uma orquestra de tachos e panelas se empertigava para iniciar uma sinfonia de cheiros e paladares. A galinha entrava em ebulição com a água e exalavam odores de desafio. A minha mãe debatia-se com a massa dos fritos, que aos poucos ganhava formas de desejo. A frigideira crepitava como um vulcão e sobre ela derramavam-se pecados gustativos. O café soluçava na cafeteira e coloria o ambiente com cores africanas. Os aromas invadiam os quartos provocando o olfacto e as células dos sabores e, por essa altura, já eu, enrolado no meu pijama colorido de flanela, estava sentado a um canto da mesa, observando com atenção todos os movimentos da minha mãe. Com o rolo da massa na mão, tal batuta, ela regia com sabedoria e mestria o conjunto de metais, madeiras e percussão. Ao centro da mesa, o grande livro de receitas, austero e autoritário, pautava todo o conjunto. A minha mãe fingia que não me via durante alguns instantes, depois, voltava-se para mim com um sorriso do tamanho do mundo e, num ritual mágico, sobre um pires, colocava uma filhós que regava com afectos e açucar amarelo. Dava-me então um abraço polvilhado com beijos e ternura. Nesse instante a pirralha da minha irmã, arrastando a sua boneca preferida por um braço, assomava à porta da cozinha com ar ainda estremunhado. Era recebida pelo meu sorriso maroto, provocador, e pelo sorriso de adulação e carinho da minha mãe. O meu pai seguia-a de imediato e logo a elevava no ar, cobrindo-a de beijos e abraços. Eu recebia um beijo na testa e um afago demorado na cabeça. A minha mãe ganhava um beijo na boca, ao mesmo tempo que a minha irmãzita cobria a cara com as mãos e eu mostrava uma língua desaprovadora e enojada.  Os Natais da minha infância, na casa dos meus pais, começavam assim, com aquelas manhãs bem-dispostas e humoradas onde o reino dos afectos imperava. Só alguns anos depois, compreendi que o Natal não é o menino Jesus, nem o presépio, nem os doces, nem as prendas e muito menos a árvore ou pai Natal. O Natal é a família. Mas o Natal é sobretudo a Mãe. A Mãe de cada um de nós. A Mãe universal!

© Fernando Alagoa
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