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FERNANDO ALAGOA

Blogue Oficial

FERNANDO ALAGOA

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04
Jul18

Professores

Textos nascidos a propósito das greves dos professores sobre o tempo de serviço.

 

Não sendo desejável, seria expectável que uma sociedade de parcos valores, que se vai paulatinamente rendendo ao deslumbre de verdades efémeras, inscritas em motores de busca elevados a oráculos de conhecimento, cedo, destronassem do seu merecido lugar todos aqueles que, por força de esmerado estudo, empenho e dedicação, teimam em contribuir para a iluminação dos espíritos.
Quando penso nos meus antigos mestres, professores e investigadores, ocorre-me “A alegoria da caverna” de Platão. No início pueril das nossas vidas vivemos a ilusão da realidade, mais tarde, quando somos chamados à luz por um professor digno desse título, dá-se o deslumbre do pré-conhecimento. Depois disso, conduzidos pelas mesmas mãos, tomamos consciência de que as cores que nos foram dadas a conhecer, assim como as ideias, misturadas, entrelaçadas, sobrepostas, dão origem a novas cores, a novas ideias, sendo ilimitadas as possibilidades que o mundo do conhecimento nos reserva.
Lembro-me de ter lido Eça e Thomas Mann com 12 anos, por causa de um professor, sabedor, me ter garantido que não eram leituras para a minha idade. Sinto na pele e no sangue, que aquele desafio me marcou para toda a vida.
Não basta ler Eça, Beccaria, ou Feuerbach, qualquer mente expedita o pode fazer. Acontece que o diabo está nos pormenores, pelo que, a maioria das vezes, é preciso alguém que nos ilumine o caminho. Essa é a função inestimável do docente, do professor, do mestre: ensinar a pensar, estimular o sentido crítico, a curiosidade.
Hoje, insiste-se muito na necessidade de incentivar as políticas de natalidade. Acredito que uma nação que não promove o ensino e desprestigia os seus professores, morrerá mais depressa de ignorância, do que pela diminuição da sua população. 
Um país sem professores capazes e devidamente incentivados a desenvolverem o seu papel, é um país condenado ao fracasso. 
Quem nunca sentiu o deslumbre do conhecimento na voz rouca de um professor, tantas vezes chorosa e calada pelas dificuldades, lavada com sorrisos, que se prenuncie. 
São muitas as tentações do passado que ainda pairam no ar que respiramos. Os resquícios dos Velhos do Restelo ainda se fazem sentir e a tentação financeira é-lhes favorável.
Talvez tenha chegado a hora de uma nação milenar como a nossa, de ter a coragem de impulsionar modelos de economia social, tão activa em países bem mais ricos do que o nosso, de valorizar o “ser” em vez do “ter”, de salvar pessoas em vez de Bancos caducos, sugadores de olhos e de riquezas, e de enaltecer aqueles que todos os dias das nossas vidas contribuem para um mundo melhor. Trata-se, tão-somente, de simples escolhas, embora significativas. Assim aqueles que nos representam tivessem, tal como os professores, a audácia de fazer acontecer.
Invocando Beccaria e adaptando os seus ensinos penalistas à educação, diria que é necessário libertar-nos do estado selvagem e de estimular uma sociedade sensível à cultura, à edução, à formação, ao ensino. O estado do ensino há-de ser o reflexo do estado da própria nação. 
Resta-nos a esperança e um obrigado do tamanho do mundo a todos aqueles – professores - que, um dia, ainda que de forma indelével, nos incutiram a capacidade de sonhar, de nos superarmos e de nos revoltarmos contra a política do silêncio.

© Fernando Alagoa
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