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FERNANDO ALAGOA

Blogue Oficial

FERNANDO ALAGOA

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15
Fev17

Dizem por aí...

Dizem por aí que ser escritor implica uma carrada de tarefas com carácter obrigacionista, como se o autor estivesse vinculado a um contrato de letras míopes, onde ninguém cola os olhos, mas todos têm a pretensão de saber decifrar. Eu creio que não, e não estou certo de estar certo nem certo de estar errado, só não acredito em tal coisa. O trabalho do escritor é escrever. Tertúlias, apresentações, entrevistas e outros afazeres de igual mediação não são da sua incumbência. Bem sei, um tipo para se tornar conhecido, tem de se esfalfar em entrevistas a jornais de classe superior e a pasquins quezilentos e, muitas das vezes, "submeter-se" a críticos de pacotilha cuja aptidão para traçar a alma humana não vai além da capacidade para descortinar, com gralhas, a composição do rótulo da "Predilecta" ou de parolar onomatopeias.

Ser escritor implica um trabalho rigoroso e exigente, uma procura constante na arte de esculpir ou moldar a palavra, para que ela se insira no espaço e se vincule na mente humana, como as pinceladas do pintor se agarram à tela numa osmose perfeita. Escrever é o eterno retorno: escrever, errar, e voltar a errar escrevendo. Se, dessa montanha de inutilidades resultarem alguns momentos ténues de originalidade, já valeu a pena. Se essa inventiva marcar a sociedade com alguns rasgos de genialidade e perdurar no tempo, então o escritor conquistou o direito de o ser.

Depois desse prazer inebriante, experimentado em primeira mão pelo seu autor, só tem existência comparável, o deleite de quem o lê.

É nessa trindade que reside o papel do escritor: ele próprio, a loucura da sua escrita e o leitor. Tudo o resto são invenções processuais mais ou menos importantes, que transcendem aquele triunvirato e que incumbem já a outros personagens, alguns, imprescindíveis, que ajudam o escritor a reinventar-se; outros, que não passam de madrugadas inúteis com quem temos de aprender a conviver. Há homens que idealizam a peça, há homens que idealizam a peça e moldam o barro, e, há homens que sem nada fazerem, arrogam-se o direito de opinar, destruindo. Como para um escritor, enquanto imitação de Deus, nada é impossível, cabe-lhe usar a máquina do tempo e navegar até ao momento em que tal manifestação funesta despertou, e erradicá-la da sua existência, até porque, cada coisa, só tem a importância que um Homem lhe der e, esses pretensos oráculos, são os mesmos que perderam Van Gogh entre "vinhedos vermelhos" e Kafka entre "processos" absurdos.

© Fernando Alagoa
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