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FERNANDO ALAGOA

FERNANDO ALAGOA

Crónicas

Autómatos

Os caminhos que a vida me vai traçando, levam-me agora a percorrer as ruas nocturnas da cidade, num abraço terno de idas e voltas.

Sigo em passos lentos mas firmes, cruzando ruas e vielas esquecidas pelos homens e engalanadas com cubículos móveis e coloridos.

Às vezes, cruzo-me com janelas de luz que trazem seres humanos dependurados, alienados e rendidos aos encantos luminosos.

Olho em redor e sinto-me um náufrago naquele mar de luzes indiferentes, que atravessam ruelas escuras, entediadas e sós.

No dragão mecânico que trespassa as entranhas da cidade, o alheamento é mais notório porque o espaço concentra os ocupantes.

Os entes não trocam palavras nem cruzam olhares, seguem absorvidos pelos quadrados cintilantes que lhes sugam os olhos, os tímpanos e os miolos.

Olham indiferentes e desconfiados quando alguém se movimenta dois milímetros e lhes rouba a frenética concentração.

Manifestam o seu descontentamento com esgares impacientes e agressivos.

Só, no meu canto, contemplo sem admiração aquela triste e desfalecida paisagem, onde não existem cheiros, nem toques, nem piscadelas de olhos, nem sorrisos, nem bocejos, nem luz, nem nada.

As pessoas estabelecem relações consigo mesmas onde o outro não tem lugar. Vivem numa ilusão de existências subjugadas pelas máquinas em que elas próprias já se tornaram.

Fui surpreendido pelo olhar de uma garota, bonita e sorridente. Naquele momento pareceu-me que os nossos pensamentos se cruzavam numa crítica silenciosa sobre uma verdade inquieta.

Afinal, percebi que não existia qualquer cumplicidade no seu olhar, que nem sequer me era dirigido, galopava sôfrego, sobre mim, numa tentativa de absorver o ecrã que se divertia por cima da minha cabeça.

Talvez já não sejamos humanos!…

 

A descoberta do Natal 

No dia de Natal, a minha mãe levantava-se ainda mais cedo do que era habitual. Por volta das seis da manhã, já os utensílios de culinária se atropelavam tentando ganhar destaque num qualquer canto especial. Não precisava de lá estar para saber que, depois daquele momento de conquista dos espaços, uma orquestra de tachos e panelas se empertigava para iniciar uma sinfonia de cheiros e paladares. A galinha entrava em ebulição com a água e exalavam odores de desafio. A minha mãe debatia-se com a massa dos fritos, que aos poucos ganhava formas de desejo. A frigideira crepitava como um vulcão e sobre ela derramavam-se pecados gustativos. O café soluçava na cafeteira e coloria o ambiente com cores africanas. Os aromas invadiam os quartos provocando o olfacto e as células dos sabores e, por essa altura, já eu, enrolado no meu pijama colorido de flanela, estava sentado a um canto da mesa, observando com atenção todos os movimentos da minha mãe. Com o rolo da massa na mão, tal batuta, ela regia com sabedoria e mestria o conjunto de metais, madeiras e percussão. Ao centro da mesa, o grande livro de receitas, austero e autoritário, pautava todo o conjunto. A minha mãe fingia que não me via durante alguns instantes, depois, voltava-se para mim com um sorriso do tamanho do mundo e, num ritual mágico, sobre um pires, colocava uma filhós que regava com afectos e açucar amarelo. Dava-me então um abraço polvilhado com beijos e ternura. Nesse instante a pirralha da minha irmã, arrastando a sua boneca preferida por um braço, assomava à porta da cozinha com ar ainda estremunhado. Era recebida pelo meu sorriso maroto, provocador, e pelo sorriso de adulação e carinho da minha mãe. O meu pai seguia-a de imediato e logo a elevava no ar, cobrindo-a de beijos e abraços. Eu recebia um beijo na testa e um afago demorado na cabeça. A minha mãe ganhava um beijo na boca, ao mesmo tempo que a minha irmãzita cobria a cara com as mãos e eu mostrava uma língua desaprovadora e enojada.  Os Natais da minha infância, na casa dos meus pais, começavam assim, com aquelas manhãs bem-dispostas e humoradas onde o reino dos afectos imperava. Só alguns anos depois, compreendi que o Natal não é o menino Jesus, nem o presépio, nem os doces, nem as prendas e muito menos a árvore ou pai Natal. O Natal é a família. Mas o Natal é sobretudo a Mãe. A Mãe de cada um de nós. A Mãe universal!

 

Mendil

Nas minhas deambulações pela cidade, cruzei-me há dias com dois barões das avenidas, o mesmo será dizer com dois ilustres proprietários de hotéis de cartolina, com quem me sentei à conversa. Entre palavras soltas retiradas com grilhetas esforçadas, atento ao desfile de manequins e vaidades, enquanto geríamos o silêncio, arremessei os olhos contra uma morena quarentona e bonita que se espraiava por uma das inúmeras mesas da deliciosa esplanada, e, se entretinha a sufocar com mimos um cãozito enfezado que acomodava ao colo. Dei por mim a pensar, com angústia, mas também com alguma graça, que é preferível ser cão a ser mendigo. Talvez pudéssemos criar uma moda de passear mendigos pela trela. Ou talvez fosse possível construir um “mendil” camarário para os ilustres barões do nada. Assim, além de um lugar onde se pudessem abrigar, teriam cuidados e mimos diários ao desbarato, concedidos pelos inúmeros voluntários que geralmente povoam os campos de concentração reservados aos digitígrados domésticos.

Comecei a imaginar o Joel (um dos mendigos presentes) ao colo da morena, com uma coleira colorida pelo pescoço e uma fatiota canina pelas costas. Ela coçava-lhe a barriga e ele abanava a perna com alegria e satisfação. Indubitavelmente, eu preferia as festas na cabeça. Os meus olhos já recompostos da beldade trigueira sorriam com prazer.

Ao longe, um cavalheiro com ar fidalgueiro passeava o seu inglês e notável buldogue, que de imediato se transformou num mendigo anafado arrastando-se pela trela. À nossa frente uma senhora que desfilava com o seu poodle emplumado, baixou-se para acariciar e beijar o seu queridinho, com quem trocou palavras ininteligíveis: bubuh, cucuhcu, shushu, biribu, cucuc, bubuc…

Ocorreu-me então a ironia da situação. Uma sociedade precisa de se preocupar e atender a inúmeras necessidades, mas não deixa de ser estranho que sejamos capazes de dedicar mais atenção aos animais do que às pessoas. Na verdade, qualquer dos casos me parece absolutamente triste. Mimamos os animais como se através deles nos mimássemos a nós próprios e, na falta de uma outra pessoa com quem partilhar a vida, personificamos o lulu ou o bichano, complementando assim aquilo que nos falta. Amamos o bicho, ou o outro “eu” que ele representa, e, simplesmente, descartamos as pessoas.

 

As Eras da Evolução

Costumo dizer que atravessei todas as eras da evolução.

Comecei a brincar com paus, pedras, bolas, latas de conserva e caricas. Estávamos em 1969, nos Estados Unidos o homem pisava pela primeira vez o solo Lunar. Será?

Depois, vieram os brinquedos de madeira, os cavalos de pau e os camiões, quase tão grandes que davam para colocarmos o mundo lá dentro. Os carros de rolamentos fazem parte deste período e as monumentais quedas também. 

Mais tarde, chegaram os carros de folha e com eles os motores de corda que suscitavam a descoberta da engenharia mecânica e também dos cemitérios de veículos. Quando os desmanchávamos para consertar (ou desconsertar), podíamos ver que eram feitos de latas de conserva de tamanho gigante. Alguns de vós recordam-se certamente das latas de banha de 5 quilos, que era depois vendida a peso!? 

Estava à porta o 25 de Abril e a ilusória liberdade. Chegaram os carros miniatura e os soldados de chumbo cederam lugar à revolução do plástico.

A referência ao Vauxhall em “Os Senhores do Universo e o Milagre de Fátima” é a evocação destes tempos e a um destes carros que costumava estar estacionado numa das ruas por onde, em criança, vagueava em eternas brincadeiras. 

Um carro, ainda hoje envolto em mistério.

O carro estava sempre estacionado na mesma rua e no mesmo sítio. Estava sempre impecavelmente limpo e reluzente, apesar de estar na rua, sujeito a todas as atribulações e intempéries. Nunca ninguém o viu sair do mesmo sítio. Nunca ninguém viu o seu condutor.

Como se mantinha sempre limpo, foi um segredo que nunca ninguém desvendou.

Um dia o carro apareceu sujo e foi alvo de generalizada estranheza.

Num outro dia, os pneus apareceram meio vazios e a estranheza já não foi tão grande. A sujidade continuava a amontoar-se.

Depois, os vidros começaram a descair e um belo dia umas das portas apareceu aberta.

Tentação!...

Desengatada a mudança, colocado o travão de mão em posição de lançamento, mãos ao volante, a aventura desenhava-se pelas ruas.

Vruuummm….

Assim houvesse quem estivesse disposto a substiuir-se ao motor. 

Mas aquela pérola não podia ser deixada naquele estado, carecia de uma limpeza e de um novo fôlego nos pneus. 

Mãos à obra rapaziada, afinal, trata-se do nosso automóvel.

O nosso automóvel!?... Ilusões pueris

No dia seguinte o automóvel desapareceu.

De quem era o automóvel? porque o deixaram chegar aquele ponto de degradação? quem o levou?

Restou-nos o mistério. 

Até hoje, ninguém soube o que aconteceu.

E assim, o misterioso desaparecimento do automóvel passou a fazer parte das recordações de miúdos traquinas e sonhadores.

Eu sempre acreditei que o carro não queria ser carro, queria ser criança e, naquele dia, concretizou o seu sonho, por isso nunca mais ninguém o viu.